MPB em movimento: 8 artistas que reinventam a canção
Desde que o termo passou a circular, nos anos 1960, ele se consolidou menos como uma categoria musical e mais como um espaço de encontros: entre o popular e o erudito.

Oito artistas que mostram como a canção brasileira continua se reinventando sem abrir mão do que a torna única.
A MPB nunca foi um gênero de fronteiras rígidas. Desde que o termo passou a circular, nos anos 1960, ele se consolidou menos como uma categoria musical e mais como um espaço de encontros: entre o popular e o erudito, o regional e o urbano, a tradição e a experimentação. Essa capacidade de incorporar influências sem perder a identidade explica por que a MPB atravessa o tempo sem soar presa a uma época.
Esse espírito permanece vivo em uma geração de artistas que ganhou projeção nas últimas duas décadas. Em vez de romper com o passado, eles conversam com a herança da música brasileira, reinterpretam referências e expandem seus limites com novas sonoridades e narrativas. O resultado é uma produção diversa e profundamente brasileira. Para quem acredita que a MPB ficou restrita aos grandes clássicos, os oito nomes a seguir mostram que ela continua em movimento.
Liniker apareceu para o grande público em um momento em que parecia difícil surgir uma voz realmente nova na música brasileira. A potência da interpretação chamou atenção logo de início, mas foi a consistência de sua obra que confirmou que não se tratava de um fenômeno passageiro. Em poucos anos, ela construiu uma discografia que ampliou as possibilidades da canção brasileira sem romper com sua tradição. Em seus discos, especialmente “Caju” (2023), soul, MPB, samba, jazz e black music convivem com naturalidade. Liniker canta sobre amor, desejo, perdas e pertencimento, fazendo de cada canção uma experiência emocional. Sua música é contemporânea sem abrir mão de dialogar com uma linhagem que passa por Tim Maia, Djavan e Gilberto Gil.
Tim Bernardes foi o vocalista e compositor central de O Terno antes de seguir carreira solo. Levou consigo a capacidade de fazer canções que parecem pertencer a um tempo anterior ainda que com autenticidade. Seu disco “Recomeçar” (2017) não tenta seguir tendências. As referências são claras: Milton Nascimento, Caetano Veloso e o universo do Clube da Esquina, mas sua música não soa como uma reprodução desses artistas. Tim incorpora essas influências de forma natural, e elas passam a fazer parte de sua própria identidade. O amor, o tempo e a memória aparecem como temas recorrentes, tratados com maturidade.
Xênia França construiu uma obra elegante e difícil de enquadrar em um único gênero. Sua música atravessa MPB, soul, R&B e jazz, sempre com a voz ocupando o centro da narrativa. Desde o álbum “Xênia” (2017), a cantora consolidou um repertório em que ancestralidade, afeto e espiritualidade aparecem sem excesso de explicações. Há um cuidado evidente com os arranjos e uma interpretação precisa.
Os Gilsons, formados por Francisco, João e José Gil, poderiam ter se apoiado no peso do sobrenome. Em vez disso, transformaram essa herança em ponto de partida para criar uma identidade própria. A sonoridade do trio combina MPB, samba, reggae, música baiana e pop com leveza e sofisticação. “Partiu” (2019) e “NASA” (2020), dois EPs lançados antes do álbum de estreia, já mostravam uma proposta artística consistente.
Luedji Luna renova a MPB recente de maneira pessoal. Suas canções nascem da experiência individual, mas nunca se limitam a ela. Amor, deslocamento, identidade e pertencimento aparecem como temas recorrentes. Em “Um Corpo no Mundo” (2017) e “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água” (2020), Luedji combina a canção brasileira com o jazz e sonoridades africanas de forma natural, criando uma identidade musical própria e reconhecível.
Criolo, embora tenha se tornado conhecido pelo rap, sempre fez música brasileira em sentido amplo. Desde “Nó na Orelha” (2011), sua obra circula entre samba, reggae, bolero, afrobeat e MPB. Em “Espiral de Ilusão” (2017), disco dedicado ao samba, essa relação fica evidente. Para quem conhece apenas o Criolo do rap, é uma porta de entrada para descobrir um compositor ligado à tradição da canção brasileira.
Juçara Marçal ocupa um lugar único na música brasileira contemporânea. Dona de uma voz potente, ela construiu uma obra que atravessa samba, música de terreiro, rock, eletrônica e poesia. Em “Delta Estácio Blues” (2021), um dos trabalhos mais celebrados da música brasileira recente, essas influências se encontram em arranjos inventivos e interpretações intensas. O resultado amplia as possibilidades da MPB e prova que tradição também pode ser sinônimo de reinvenção.
Tietê faz parte de uma geração de bandas que entende a MPB como um território aberto. Em suas canções, jazz, rock, música brasileira e arranjos vocais se encontram de maneira orgânica. Essa identidade ganhou um novo capítulo em “Tamisa” (2025), álbum gravado no histórico Abbey Road Studios, em Londres. Sem abrir mão das influências da Vanguarda Paulista, a banda amplia sua paleta sonora com arranjos sofisticados e uma produção que valoriza o trabalho coletivo.
Esses artistas mostram que a MPB nunca deixou de existir. Ela apenas passou a ocupar outros espaços, dialogar com novas linguagens e encontrar diferentes maneiras de contar as mesmas inquietações humanas. Entre o samba, o soul, o rap, o jazz e tantas outras influências, a canção brasileira continua se transformando sem perder aquilo que sempre a definiu: a capacidade de emocionar, provocar e permanecer.
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