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Jeferson Tenório: literatura contra a vida

Para ele, o escritor precisa estar lúcido para simular a dor e refletir sobre o que aconteceu. Escrever para mim é uma alegria.

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Jeferson Tenório: literatura contra a vida

O escritor Jeferson Tenório, autor de “O Avesso da Pele”, concedeu entrevista à revista Vida Simples e falou sobre seu processo criativo, a relação entre dor e escrita e o crescimento do protagonismo negro na literatura. O livro, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021, conta a história de Pedro, um jovem negro que tenta reconstruir a trajetória do pai, Henrique, morto em uma abordagem policial. A narrativa mostra como o racismo atravessou a vida de Henrique e influenciou sua relação com o próprio corpo, abordando temas como identidade, memória, afeto e pertencimento.

Durante a conversa, Tenório explicou que não escreve sobre dores que ainda estão vivas. Para ele, o escritor precisa estar lúcido para simular a dor e refletir sobre o que aconteceu. “Escrever para mim não é sofrido. Escrever para mim é uma alegria, porque é um registro de que apesar da dor e do sofrimento ainda conseguimos criar histórias”, afirmou. O autor disse que a leitura, mais do que a escrita, ajuda a organizar o mundo interior, enquanto a escrita é uma forma de intervir no mundo. “Faço literatura porque discordo da vida”, declarou.

Sobre a intuição, Tenório disse que todo trabalho criativo carrega uma dose de mistério que não passa pela consciência. “Escrever sem intuição é escrever sem vida”, pontuou. Ele também citou autores como Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Carolina Maria de Jesus, James Baldwin e Machado de Assis como leituras que mudaram sua forma de ver a vida.

O escritor avaliou que o aumento do protagonismo negro na literatura é resultado de luta. Ele citou obras como “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, e “Solitária”, de Eliana Alves Cruz, como exemplos de literatura de qualidade com protagonistas negros. Para apresentar a leitura a quem diz não gostar, Tenório sugere mostrar a alegria que os livros proporcionam, em vez de apenas indicar obras.

Nesta quinta-feira (13), às 20h, o autor participa da Festa Literária Internacional de Niterói (Flin) ao lado de Ana Maria Gonçalves e Ynaê Lopes dos Santos. A mesa vai discutir memória, identidade e a construção de novas narrativas para o Brasil. Com o tema “Territórios das Palavras”, o evento acontece no Reserva Cultural de Niterói, com programação gratuita. A edição homenageia a antropóloga e filósofa Lélia Gonzalez. A programação inclui nomes como Emicida, Eliana Alves Cruz, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Ana Maria Machado, Ruy Castro, Cidinha da Silva, Luiz Antonio Simas, Tatiana Salem Levy e Mariana Salomão.

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