Ir para o corpo da página
segunda-feira, 14 de setembro de 2026Noticias em tempo real
Romances e Leituras
Romances e Leituras
Informação

A Odisseia de Nolan: por que Odisseu segue atual

O psicoterapeuta junguiano e poeta Thiago Domingues lê a obra como uma metáfora para a vida. Essa casa, porém, não é apenas um lugar físico.

Por · · 2 min de leitura
A Odisseia de Nolan: por que Odisseu segue atual

Quase três mil anos depois de ter sido escrita, a "Odisseia" segue atual e ganha nova adaptação no cinema, dirigida por Christopher Nolan. A história de Odisseu, que passa dez anos tentando voltar para casa após a Guerra de Troia, continua oferecendo formas de pensar experiências como identidade, amadurecimento, perda e transformação.

O psicoterapeuta junguiano e poeta Thiago Domingues lê a obra como uma metáfora para a vida. "Em termos metafóricos e psicológicos, estamos sempre voltando para casa. Essa casa, porém, não é apenas um lugar físico. É a lenta descoberta de quem somos quando deixamos de estar completamente identificados com os papéis que desempenhamos ao longo da vida", afirma.

Depois da glória

Para Thiago, a "Ilíada" e a "Odisseia" mostram dois momentos da mesma trajetória. A primeira narra o auge do herói. A segunda acompanha o que acontece quando essa identidade já não responde às exigências da vida. "A maior batalha de Odisseu não é contra exércitos ou monstros, mas contra a difícil tarefa de estar identificado apenas com o herói. O retorno a Ítaca simboliza a passagem para uma nova etapa da existência", explica.

Odisseu chora várias vezes ao longo do poema. Para o psicoterapeuta, Homero sugere que é a capacidade de sofrer, reconhecer limites e continuar a travessia que torna alguém humano. Durante a viagem, Odisseu perde os títulos que sustentavam sua identidade, tornando-se náufrago, estrangeiro e mendigo antes de voltar a ser rei.

Os desvios no caminho

Os obstáculos encontrados por Odisseu não são desvios da jornada, mas a própria jornada. "Também em nossa vida, aquilo que mais nos transforma raramente coincide com aquilo que havíamos planejado. É nos desvios que descobrimos recursos que desconhecíamos possuir", diz Thiago. Ele recorre a Cronos, o deus do tempo, para lembrar que o tempo relativiza triunfos e convida a descobrir um modo mais amplo de existir.

Personagens simbólicos

Penélope representa a espera e a dificuldade de encerrar um ciclo. Telêmaco vive o desafio de crescer na ausência do pai. Circe, Calipso e as Sereias colocam Odisseu diante da tentação de interromper a própria jornada. Mesmo após retornar a Ítaca, o herói não abandona completamente a identidade construída ao longo da viagem. "A individuação para Jung não consiste em destruir o herói, mas em impedir que esse arquétipo monopolize a personalidade", afirma.

O percurso de Odisseu não termina quando ele chega a Ítaca. O retorno marca o início de uma nova etapa, em que as experiências vividas passam a fazer parte de quem ele se tornou. "A Odisseia narra o difícil retorno de cada um de nós à própria humanidade", conclui Thiago.

Leia também: acompanhe a lombada de noticias e percorra a lombada de entretenimento.

Na mesma estante

Para continuar